domingo, 28 de outubro de 2012

A vocação da donzela - parte 3



3° É pecado não seguir a própria vocação?

a) Geralmente, não. – A vocação não é imposta, mas proposta. Quando Jesus chamou o moço rico, disse-lhe apenas: “Se queres ser perfeito”. Deixou-o, pois livre de aceitar ou de recusar o seu divino convite, de seguí-lo.

Esse é o caso comum, mesmo quando se trata da vocação religiosa. Esta exige os votos de pobreza, de castidade e de obediência. Ora, estas três virtudes são de conselho e não de preceito.

Ninguém é obrigado, sob pena de pecado, a seguir os conselhos evangélicos; só os preceitos se impõem desta maneira imperativa.

De notar é, entretanto, que, agora uma revelação formal, não se pode possuir, a respeito dos desígnios de Deus sobre uma alma, uma certeza que exclua toda a possibilidade de erro, tal como se faria mister para fundamentar uma obrigação estrita. Os indícios de vocação são, comumente, assaz nítidos para que a prudência aconselhe abraçar tal trilha de preferência a tal outra, mas raramente são bastante decisivos para vedar uma outra escolha.

b) Pode, porém, haver grande imprudência. – Quando os sinais de vocação aparecerem bem claros, far-se-ia mal em, por covardia, recuar ante o sacrifício ou por causa das lutas necessárias. Todo o resto da vida corre grande risco de se ressentir da recusa às insinuações divinas.

“A predestinação, diz S. Agostinho, encerra e supõe a união de três graças de que depende a salvação: a do batismo, que a começa, a da vocação, que a continua, a da perseverança, que a remata”.

São esses, pois, como que três elos que formam uma só cadeia misteriosa, e, sendo a vocação o do meio, liga de tal forma os outros dois, que, sem ela, ninguém pode prevalecer-se do primeiro nem prometer o último.

Não seguindo a sua vocação, a pessoa priva-se das graças que Deus prepara para ela. A pessoa será sempre mais ou menos como uma planta desarraigada. Deus poderá diminuir seus dons e fazer sentir à alma infiel que se dói de vê-la recusar seus convites. Ele lhe dissera: “Vem a mim por este caminho que eu te preparo. Nele dar-te-ei graças que te ajudarão poderosamente”. Se ela toma um caminho oposto, arrisca-se a não mais achar a abundância das graças que Deus lhe preparara.

Uma vocação para a perfeição é um “dom de Deus”. Deus não nos força a aceitar todos os seus dons, mas, recusando-os, nós introduzimos em nossa alma uma desordem tal, que o Pe. Graty pôde escrever a respeito: “As almas surdas à sua vocação andam tortamente a vida toda; dir-se-ia que a graça já não chega a elas senão obliquamente, e que Deus, por assim dizer, só opera nelas com mão forçada”.

Não se compromete fatalmente a própria salvação, mas torna-se essa salvação mais difícil. Nesse caso a pessoa se parece com o viajador que, ao invés de ir à sua meta pela grande estrada traçada, segura, conhecida, toma caminhos desviados, compridos, desconhecidos e perigosos.

Todavia, após uma “má rumagem”, não se deve desesperar. A salvação é sempre possível, e a graça de Deus aí está sempre.

c) Certas almas ficam indecisas. – Elas não souberam ou não puderam solucionar de maneira peremptória a questão da sua vocação. Sem descurarem examiná-la, ou mesmo oferecendo-se para isso, obstinaram-se de encontro a uma dúvida que não ousaram esclarecer. A sua recusa, então, não foi formal, a resistência não foi completa, elas acreditaram dever esperar ainda uma luz que não veio, uma decisão que ninguém quis tomar. O tempo que passa fez a sua obra, sobrevieram dificuldades; a inconstância humana meteu-se de permeio e, embora sempre nas trevas da dúvida, essas almas fracas acabaram por escolher uma trilha que não era a sua. No fundo, ficar-lhes-á sempre, quiçá até a morte, um sentimento confuso de certa infidelidade. Mas, não tendo sabido fixar as suas incertezas, essas almas não podem, por isso, ser abandonadas por Deus. Por que então haveriam de desanimar?

Ele lhes não fechou o seu coração, e elas tem muitas maneiras de redimir de forma completa, às vezes até heróica, a falta de vontade e as hesitações de que se não puderam libertar.


livro: A formação da donzela- padre José Baeteman
Parte V

A vocação da donzela
Capítulo I

Em Jesus e Maria,
Débora Cristina

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